Sabão artesanal de cinza Por: André Lisboa

 Hoje em dia temos à disposição diversas tipos de sabões (sabonetes sólidos e líquidos, sabão em barra, detergentes, sabão em pó, etc.), de fácil acesso em supermercados, farmácias, etc. e de baixo custo. Porém, centenas de anos atrás não era assim. Não existiam indústrias de sabões por aqui. Por esse motivo nossos antepassados tinham que saber fazer sabão com cinza de madeira ou lixívia (obtida passando água através de uma mistura de cinzas) e gordura animal. Atualmente ainda se encontra pessoas que utilizam essa técnica, mas são difíceis de encontrar mesmo no meio rural. Agora vamos aprender como se faz o sabão artesanal de coada com a Dona Zíula e sua filha Marisa, moradoras da comunidade do Grumarim, município de Caparaó, na Zona da Mata de Minas Gerais.

 

Materiais Necessários

  • cinzas
  • 1,5 Kilograma de sebo
  • 500 gramas de soda caustica
  • Peneira

Fase 1 - Mãos à obra

 Primeiramente, peneire a cinza para separar pedaços de madeira que não devem fazer parte do conteúdo a ser utilizado (figura 1).

Fase 2 - Fazendo a coada

 Em um recipiente com furos no fundo (figura 2), coloque a cinza peneirada e pressione-a de forma a obter uma mistura compacta. Disponha o recipiente em cima de uma outra vasilha e, vagarosamente, adicione água à cinza. A água que escorre e é recolhida no recipiente inferior é rica em compostos básicos e é popularmente chamada de coada. São necessários 4 litros de coada para fazer o sabão.

Fase 3 - Fervendo a coada

 Em um fogão ou chapa elétrica, aqueça a coada até a fervura. Mantenha o aquecimento e continue misturando até o final do procedimento (figura 3). Adicione o sebo.

Fase 4 - Dissolução da soda caustica

 Dissolva a soda caustica em água fria, e adicione-a aos poucos á a mistura (figura 4). Tenha cuidado, pois haverá a liberação de vapores que, se inalados podem lesar mucosas do seu corpo. ATENÇÃO: Não use vasilhas de alumínio. O ideal é realizar este procedimento com uma máscara de proteção, em ambiente ventilado e longe de crianças.

Fase 5 - Quase pronto

 Quando a mistura adquirir consistência pastosa (figura 5), retire-a do fogo.

Fase 6 - Colocando na forma

 Neste ponto, toda a gordura adicionada deverá ter reagido com a soda cáustica e com os sais básicos da cinza. Para testar se ainda tem gordura na mistura, coloque um pouco do conteúdo em uma vasilha e adicione água. Se a mistura ficar branca igual ao leite, é sinal de que ainda há gordura livre e é necessário adicionar mais soda caustica. Se, ao contrário, a mistura não ficar leitosa, coloque-a em uma caixa forrada com plástico (figura 6) e deixe-a secar por pelo menos 12 horas. Dependendo da umidade do ar, algumas vezes é necessário mais tempo.

Fase 7 - Cortando o sabão

 Corte o bloco obtido em pedaços menores (figura 7). Se ele ainda não estiver bem firme, você poderá deixá-lo secar por um tempo maior.

OBS: O sabão poderá ficar mais claro ou escuro, dependendo do tipo de madeira utilizada para fazer a cinza. Para se obter o sabão mostrado na figura abaixo, utilizou-se a madeira do pé-de-café.

Fase 8 - O que acontece

 O sabão é um sal de ácido carboxílico, que é produzido a partir da reação de um um triglicerídeo com uma base forte. Nesse experimento, utilizou-se como fonte de triglicerídeo e como base forte, o sebo ou gordura animal e a soda cáustica, respectivamente.

Essa reação é denominada saponificação, que está ilustrada na figura 8.

Na saponificação é formada uma molécula grande (figura 9).Pode-se observar os átomos de carbono (preto e verde) e hidrogênio (branco) com átomos de sódio (azul) e oxigênio (vermelho) na ponta. Esta estrutura molecular é responsável pela diminuição da tensão superficial da água, uma vez que ela diminui as forças de coesão (que unem as moléculas), deixando a água mais fluida e mais fácil de se misturar. Por isso, ao contrário do que se pensa, o sabão por si só não limpa coisa alguma. Diminuindo a tensão superficial observada nos solventes (por exemplo, a água), o sabão permite um maior contato das partículas de sujeira com a água, o que realmente limpa. Essa grande molécula é constituída por duas porções que apresentam características distintas (figura 10), a parte hidrofóbica do sabão interage com a gordura, enquanto a parte polar interage com a água, formando partículas que se mantêm dispersas na água, com uma estrutura arredondada (micelas), com as partes que gostam de água apontando para fora.

Comentários - 3 Comentários

Você precisa estar logado para comentar.

Juliane Lopes Ferreira em 31/08/2012 00:03:35

Gostaria de saber se o sebo pode ser substituído por óleo de vegetal usado

Sávio Augusto Silva em 23/07/2016 22:53:13

Olá, já fiz do sabão acima mencionado. Porém não usei soda cáustica, apenas água de coada (gastei muita). E para o sabão coloquei tanto gordura animal quanto vegetal (óleos de soja usados por exemplo). E também ouvi dizer algum tempo atrás que algumas pessoas colocavam pedaços pequenos de mamão verde, ou também pequi ou abacate. (Mas essas frutas devem derreter bastante na panela).

Alfredo Mateus em 02/01/2010 17:33:48

Esse é o primeiro da série "Ciência na roça" e ficou muito bom. Vamos aguardar os próximos!